TERRA DOS BACOS VACANTES


11/12/2005


Crônicas de meu tempo

Domingo à noite

 

Não devo ter muito a dizer, mas como tenho um filho e estou prestes a plantar uma arvore, resolvi soltar minhas palavras ao vento. Peço desculpas pelo meu português. Tive pouca disposição para compreender os adjuntos adverbiais de lugar do Cegalla.

Mas não venho falar de mim. Venho dizer de meu tempo. Não tenho a pretensão de tornar estas crônicas um compêndio. São apenas palavras que devem ser interpretadas como uma perspectiva, um olhar, como querem os documentaristas quando observam a realidade.

Queria apenas relatar um pouco da minha e da experiência das pessoas no mundo cibernético que vivemos. Uma página por dia. Quando tiver saco, escrevo. Leiam da mesma forma.

Hoje falarei do domingo. Véspera de férias de professor, comecei a  pensar no alívio de não ter de pensar no trabalho amanhã. Não que não goste do meu. Muito pelo contrário. O adoro. Mas penso que a liberdade de escolher entre trabalhar quando se quer e não trabalhar quando não se quer, deve ser maravilhosa. Lembro-me de coisas ruins da minha infância. Outras são boas. Dos trabalhões lembro-me das gostosas risadas de meu pai. Quantas saudades tenho de meu pai.

 

 

                                

Do fantástico, tenho péssimas lembranças. Lembrava-me o Cegalla. Naquela época, não sabia o que era simulacro. Sabia apenas que não via nenhuma graça naquelas mulheres sem graça da abertura. Era o prelúdio da maldade. Imediatamente vinha em mente, ainda na noite chuvosa de Novembro, o despertador torturante do dia seguinte. Em poucas horas, ouviria não mais as gargalhadas de meu pai, mas uma voz firme, rigorosa e disciplinadora: Luzotávio, cinco e meia.

Mas também agora sou pai. Coloco meu filho para dormir e digo-lhe que o amo. Mas durma, pois já é hora. Mundo de castrações... Ser pai não é fácil quando se pensa nisso, quando  nos colocamos no lugar do outro. Logicamente(espero), meu filho terá muitas saudades de mim. Amo-lhe muito. Mas preciso ser pai. Quando crescer mais um pouco terei que amaldiçoar seus domingos, amadurece-lo à força.

Neste mundo, tudo que é civilizado é imperfeito. Não tenho nenhuma fórmula mágica, mas sou um pouco romântico e acredito que o que é natural é melhor e mais bonito. Queria, por exemplo, que trabalhássemos quando tivéssemos vontade. Como Sócrates fazia. Seríamos livres se assim o fosse e nossos domingos não seriam tão deprimentes.

Aliás, não é o domingo que nos deprime. Ë o Fantástico e o Capitalismo. Tenho saudades do DIDI Mocó, colesterol, novalgina...

 

                                           

 

BELO HORIZONTE,12/11/2005

Escrito por LUIZ OTÁVIO CORRÊA às 22h19
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